Por que devemos discutir a matriz energética do país?

Para William Siri, crise hídrica e maior exploração do carvão tornam o debate sobre o tema ainda mais urgente – e isso tem tudo a ver com as eleições

Você percebe que tem algo de errado na política quando vê a conta de luz aumentando todo mês, mesmo fazendo tudo que manda o protocolo: desliga tudo da tomada, economiza no banho, reduz o consumo. Mas, no fim, o valor só aumenta. É em casa que a gente começa a entender o que está acontecendo no Brasil.

Não há país desenvolvido e soberano sem autonomia energética. Quando o país em questão é o Brasil, de dimensões continentais e perspectivas tão diferentes para cada uma das regiões, a urgência do tema se torna mais evidente. Estamos falando de algo que vai muito além do que ter energia à disposição. Discutir matriz energética, ou seja, o conjunto de fontes de produção da nossa energia, é entender que estamos num momento crucial: caso não façamos nada, esta década pode ser o “ponto de não-retorno” para a humanidade. O nosso desenvolvimento econômico precisa ter uma perspectiva sustentável ou corremos o risco de não garantir um futuro digno para as futuras gerações – além das atuais, que também serão afetadas. Precisamos de uma Política de Estado planejada a longo prazo que sobreviva a quem estiver no poder. Nomes são transitórios, política de estado, não. 

Toda fonte energética tem seus prós e contras. Apesar da profusão de rios que possibilitaram mais hidrelétricas em nosso país nas últimas décadas, elas demandam o alagamento de grandes áreas, modificam o curso dos rios e afetam a biodiversidade de várias espécies vegetais e animais. Isso sem falar do enorme impacto na vida das populações ribeirinhas e indígenas.

Na minha geração, ainda na escola, muito se falava sobre a eficiência e caráter de energia limpa das hidrelétricas, modelo predominante de produção de energia elétrica no Brasil. Hoje, o entendimento é bem diferente. Como vimos nas crises hídricas dos últimos anos, o país pode ficar dependente de outras fontes mais poluentes como as usinas termelétricas. De alto custo para o sistema elétrico e baseada em combustíveis fósseis para a sua produção (queima de diesel e carvão), elas aumentam significativamente a poluição atmosférica.

A criação da “bandeira de escassez hídrica” banca o aumento de custo de produção com um valor de R$ 14,20 a cada 100 quilowatts utilizados em cada residência.Mas essa realidade não é péssima apenas para o bolso dos cidadãos, é ruim também para o setor produtivo. As indústrias acabam repassando a elevação de custos com preços mais altos, gerando uma reação em cadeia.Precisamos diversificar nossa matriz de forma sustentável, com baixa emissão de poluentes.

Se nada for feito pela perspectiva ambiental, crises hídricas serão ainda mais recorrentes. Por isso, não basta ter a resiliência como um norte: precisamos fazer diferente desde já.

Infelizmente, não é o que o Governo Federal sinaliza. Afinal, Bolsonaro sancionou o PL 712/2019, lei que estende para 2040 a operação do Complexo Termelétrico Jorge Lacerda (CTJL). Baseada na forte produção de energia a partir do carvão no estado de Santa Catarina, isso significa colocar o Brasil na dependência da energia mais poluente que temos por ainda mais tempo! 

Como Presidente da Comissão de Trabalho e Emprego na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, compreendo que as condições de empregabilidade de um ofício tão específico não podem ser modificadas da noite para o dia. Mas não dá para deixar o tempo passar.

É preciso vontade política para promover a requalificação dos profissionais que trabalham nas carvoarias e de toda a região beneficiada, aplicando de maneira realmente justa e democrática o Programa Transição Energética Justa (TEJ). Garantir que não haja a dependência de uma única matriz produtiva para a geração de empregos é fundamental. Esse entendimento também vale para a cidade e o estado do Rio de Janeiro, já nos referindo à cadeia petrolífera. Precisamos agir agora com políticas públicas de implantação de empregos verdes. Mudar datas e postergar o problema não vai fazer com que ele desapareça.

Não esperávamos uma postura diferente de Jair Bolsonaro, que desprestigia os compromissos de redução de emissões de gases do efeito estufa e joga contra a agenda climática desde antes de ser candidato à Presidência da República. Ainda assim, é hora dos governos agirem em torno da pauta.

Temos alternativas? Temos!

O Brasil é um país, como diz o poeta, “abençoado por Deus e bonito por natureza”. Modelos de produção de energia mais sustentáveis, como a energia eólica e a solar, encontram enorme potencial em nossas terras.

Precisamos que as eleições deste ano promovam a discussão política sobre programas estruturais abordando o debate sobre matriz energética, sem se deixar abater pelas fake news no diálogo com a sociedade. Que seja possível estar lado a lado da população trabalhadora, sem esquecer do tema que deve nortear a humanidade. Nossa saúde, nosso bolso e nosso futuro saudável dependem disso.


Escrito por William Siri
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